Way Out West: viajando doze horas por causa de uma música
Pegamos a estrada de Berlim até Gotemburgo, na Suécia, atrás de um momento que não sabia se aconteceria — até ele acontecer.
Lalai Persson
Desde que me mudei para Berlim, passei a perseguir duas coisas: os dias quentes e ensolarados e os momentos de catarse.
No meio do ano, um amigo me mandou o vídeo de um show do Moby com o cantor Jacob Lusk cantando "Natural Blues". Chorei sozinha na sala olhando para uma tela de quinze centímetros. Se eu senti aquilo tudo com o telefone na mão, o que aconteceria ao vivo?
O verão chegou com tudo em Berlim e eu esqueci da cena até conferir o line-up de um dos meus festivais favoritos do mundo, o Way Out West, na Suécia. Uma fileira de nomes que marcaram fases importantes da minha vida acenava para mim: Moby, The Cure, Nick Cave, Lorde, Wilco. Decidi que estaria em Gotemburgo no dia 13 de agosto, um dia depois do eclipse solar, o que soou um aceno positivo do universo.
Convenci meu marido a ir comigo. Saímos de Berlim numa quarta no fim da tarde, ele no volante, eu com a cara colada na tela do celular tentando enquadrar o eclipse nela. Quando a luz ao nosso redor ficou fosca e acinzentada, eu sabia que estávamos chegando ao porto de Rostock para pegar uma balsa noturna que nos deixaria do outro lado do Mar Báltico.
Depois de uma hora na fila de embarque, descobri que tinha esquecido o passaporte em casa. Travessia negada. Dirigimos para o posto policial em busca de um documento temporário, sem garantia de que daria tempo. Caso não desse, eu teria que voltar para Berlim. Tinha vinte minutos, levei quarenta. Por fim, consegui o documento, a balsa atrasou e eu embarquei junto com os caminhões.
Dormi mal de ansiedade. Cheguei na quinta-feira muito cedo, com o sol nascendo, céu azul e um longo dia pela frente.
O Way Out West acontece dentro do Slottsskogen, um parque no centro de Gotemburgo. É onde as pessoas passeiam com cachorro, fazem piquenique, nadam nos lagos e tomam sol no curto verão. Em agosto, os palcos ocupam parte da paisagem.
Toda a comida do festival é vegetariana desde 2012. Ninguém reclama, o que já diz bastante sobre o público.
E foi o público que mais me surpreendeu. Não eram pais com filhos. Eram turmas de pessoas com mais de sessenta anos curtindo juntas. Vi gente de dezesseis e de setenta dividindo a mesma grama.
Cheguei com quarenta minutos de antecedência para ver o Moby, enquanto meu marido ia fotografar o show. Eu estava cansada da viagem e da tensão do passaporte, mas o calor e o sol queimando a pele me deram a revigorada necessária. Ele entrou com uma energia tão alta quanto o sol ainda estava às oito horas da noite.
Do meu lado esquerdo, uma mulher sozinha, na casa dos sessenta. Do direito, um homem de uns trinta anos. Nenhum de nós três tinha vindo com alguém para a grade. Acacbei virando cúmplice dos meus vizinhos desconhecidos. Trocamos olhares, dançamos, cantamos juntos e choramos nos primeiros acordes de "In This World", com a voz da Choklate rasgando o céu:
Lordy, don't leave me
All by myself
Não foram poucos os momentos emocionantes para quem viu o Moby no Espaço das Américas em 2005, numa pista esfumaçada e fedida. Para quem ouviu "Play" até furar o disco, ouvir "Porcelain" e "Why Does My Heart Feel So Bad" ao vivo vinte e um anos depois, foi entrar num universo paralelo. Uma felicidade se espalhava pelo corpo, o sorriso rasgava o rosto, os olhos ficaram marejados várias vezes. E ainda não tinha chegado o momento que me fez viajar doze horas até ali.
Foi então que o Moby parou o show para chamar o Jacob Lusk ao palco. Não era só eu. Era todo mundo ali esperando aquilo.
A maior parte do público com menos de trinta anos provavelmente estava ali por "When It's Cold I'd Like to Die", a música que fez todo mundo chorar no fim da primeira e da quarta temporadas de Stranger Things e depois viralizou no TikTok. Agora estavam melancólicos, apontando a lanterna do celular para o palco, formando um oceano iluminado.
Eu nunca olho setlist antes de um show. Gosto da surpresa. Então estava ali sem saber se a minha música viria.
Ela mal acabou, a gente mal se recompôs, e já veio "Oh Lordy, Lord, trouble so hard". Gritos, aplausos, o público saindo daquele torpor melancólico e entrando num delírio coletivo.
O ápice veio. Senti os corpos em volta tentando chegar mais perto, todo mundo cantando junto, a voz do Lusk ecoando naquela imensidão do parque. Olhei para a mulher da minha esquerda e ela cantou comigo secando as lágrimas. O homem da direita se juntou e cantou com a gente.
A linha que abre "Natural Blues" não é do Moby. É da Vera Hall, uma cantora do Alabama que gravou a música pelos Lomax em 1937. No disco “Play” é a voz dela. No palco, a canção saía da boca de um cantor gospel de Los Angeles, quase noventa anos depois, para milhares de pessoas que não sabem quem ela foi, promovendo um momento extraordinário que só festivais de música conseguem oferecer.
Quando a música acabou, o mundo seguia dançante nos meus olhos. O Moby decidiu não terminar o show ali. Emendou uma rave com "Feeling So Real", título quase irônico para aquele momento. Todo mundo desnorteado, sem saber bem o que fazer. Eu enxugava as lágrimas e já começava a dançar, voltando ao eixo sem tempo de respirar direito.
Foi então que relaxei. O que eu tinha ido buscar na Suécia aconteceu.
Tínhamos vivido juntos, entre estranhos, aquilo que só um ritual proporciona. A gente não precisa ter lido Émile Durkheim para saber o que é efervescência coletiva. Sente na pele e já não vê a hora de sentir tudo de novo. Mas não sabe como, porque não dá para prever uma catarse. Ali estava eu extasiada, no meio da natureza, vendo os últimos raios de sol sumirem por trás das árvores.
Nos dois dias seguintes, mesmo com um line-up estelar, me senti liberada para apenas curtir. O momento catártico do dia anterior tinha sido suficiente para me preencher por um bom tempo.
Dancei muito. Descobri artistas novos. Me emocionei vendo o brasileiro Arthur Verocai, aos 81 anos, cantar para uma plateia de suecos jovens, acompanhado de sua orquestra. Gorillaz me fez chorar de novo, mas era o corpo ainda processando o que tinha acontecido na quinta.
Foram três dias de sol, música, festa, comida boa e mata em volta. No sábado meus pés doíam e eu achei que não conseguiria ficar de pé, mas estava tão revigorada que, quando os portões do parque fecharam à meia-noite, convidei meu marido para caminhar pela cidade na madrugada para finalmente digerir esse torpor que há tanto tempo eu não sentia.
Way Out West 2027
12 a 14 de agosto, Slottsskogen, Gotemburgo.